Como a Autópsia é realizada pelo Médico Legista.

Por fora (exame externo):

O Médico pesquisa minuciosamente o corpo, sem abrir as cavidades naturais. Quando se desconhece a identidade da pessoa, a primeira tarefa consiste em especificar suas várias características. Sexo, estatura, idade aparente, cor dos olhos e dos cabelos, são rigorosamente anotados. O Médico também examina as impressões digitais e descreve os sinais particulares - por exemplo: cicatrizes e tatuagens.
Durante suas observações iniciais o Médico pode constatar a existência de fraturas com exceção daquelas situadas na coluna vertebral, que somente podem ser observadas após a abertura do corpo. Depois realizam-se incisões na superfície cutânea (relativo à pele das pessoas), a fim de procurar eventuais hematomas, principalmente em toda a extensão do tronco e membros.

Por dentro (exame interno):

O corte na pele e de todo tecido celular começa a ser realizado abaixo do queixo, a partir desse ponto a incisão descreve no lado esquerdo um arco abaixo da clavícula que se estende até a axila. Na altura da cicatriz umbilical, a linha desvia-se um pouco do centro, seguindo depois o seu caminho normal. Há ainda outros tipos de autópsia, mas todas se prolongam até os membros interiores.

Exame Profundo:

Os cortes se processam em vários sentidos e depois as regiões suspeitas são retiradas para exame histológico (Histologia - Ciência que estuda os tecidos orgânicos). Corta-se a ponta de entrada dos vasos e nervos dos vários órgãos. Um por um, os órgãos começam a ser separados. No caso de perícia toxicológica, o estômago e seu conteúdo, assim como segmentos de todas as vísceras, devem ser colocados em diversos frascos e rapidamente enviados ao laboratório. Não convém colocar nos frascos nenhum liquido para conservar os órgãos, pois poderá dificultar ou mesmo invalidar a perícia química. A melhor providência é colocar as vísceras num refrigerador e mantê-las todo o tempo possível nesse local.

O Cérebro:

Para realizar a abertura da cavidade craniana a primeira tarefa consiste em deslocar o couro cabeludo. O Médico examina o plano ósseo, procurando alguma lesão traumática, como hematomas e fraturas. O crânio é secionado com serra, em seguida, no sentido transversal, o médico separa o encéfalo. E pode então examinar as possíveis lesões cerebrais. Terminado o exame necroscópico, o corpo é recomposto. Os diversos órgãos são recolhidos e colocados em seus lugares naturais. O corpo é então costurado. Tudo o que foi descrito representa, na verdade, um apanhado esquemático da autópsia. Há numerosas outras técnicas e o Médico não segue necessariamente a ordem exposta.

NECROPSIA

A autópsia é mais propriamente denominada necropse ou necropsia. Éuma operação no cadáver, que visa esclarecer a ocorrência de crimes, acidentes de trabalho, enfim, toda e qualquer morte violenta. Outras vezes visa as indagações de finalidade sanitária ou clínica. Procedem-se a necropsia em todos os casos de morte violenta, isto é, causada por crimes de acidentes, suicídios e ainda na hipótese de morte natural sem assistência médica. A técnica da necropsia é diferente, segundo as variadas circunstâncias que cercam a morte.

Como outros mestres, acentua Flamínio Fávero, a necropsia médico-legal obedece comumente a um roteiro pré-estabelecido até em regulamentos policiais. Entre nós, o regulamento da polícia, de 1934, prescrevia regras minuciosas. Começa esta perícia pelo exame externo, que pode, às vezes, ser sumário. O exame interno então, quando a causa morte seja logo apurada, limitar-se-á à cavidade, que esclareça a indagação. O exame interno exige, ordinariamente, a abertura, pelo menos, das três grandes cavidades: crânio, tórax e abdômen. Terminada a autópsia, procede-se à reconstituição do cadáver. As autópsias devem ser, sempre que possível, realizadas à luz natural.

Nas mortes súbitas é indispensável uma necropsia completa. Visa descobrir qualquer traumatismo disfarçado, inclusive a entrada dissimulada de projéteis ou reveladas embolias do coração ou pulmões. Recolhe-se sangue e urina para exames, como também às vezes as vísceras.

A necropsia pode logo ser concludente, isto é, dar imediatamente a explicação da morte, diante de uma hemorragia abundante, verifica-se que decorreu de ruptura por aneurisma, males do coração e outros podem também ser imediatamente revelados. Porém há casos de autópsias que resultam brancas, então se indagará se ocorreu alguma intoxicação, o que o exame das vísceras responderá, pode ainda haver ocorrido a morte por inibição e ai as aumentam.

Sabe-se que existem pessoas, especialmente em casos de afogamento, que por predisposição orgânica ou outras circunstâncias ocasionais, como a exaustão, a embriaguez, o medo, podem ser vítimas de inibição. Jean Planques afirma que nos casos de morte por imersão na água, em um por dez não ocorre asfixia na síncope. O homem afunda a prumo inerte. Não engole água. A morte decorre da suspensão, por inibição, de funções vitais, o coração ou a respiração para, a tensão arterial suspende-se. Isto se dá, embora raramente, pelo choque provocado pela imersão em água fria, quando o organismo esteja propenso a defender-se, seja por alguma intoxicação, mais comum a alcoólica, fadiga pronunciada, ou durante a digestão, ou em se tratando de pessoas idosas.

As lesões mortais são as que atingem seriamente os órgãos vitais ou, mesmo atingindo outras partes do corpo, tenham causado uma profunda hemorragia. Apontam-se como órgãos vitais o coração, particularmente as aurículas, o cérebro na região em que há o centro da respiração e da circulação e o bulbo raquidiano, do qual depende a função respiratória.

Ainda adverte Jean Planques, que mesmo quando nenhum órgão vital é atingido e quando todo o sangue não se derrama, a morte é possível, no caso de ferimentos múltiplos e profundos, pelo fenômeno do choque, é palavra simples a que não corresponde uma explicação médica simples. Nos mortos por choque a autópsia revela um sangue espesso, cujo plasma se derramou nos tecidos em virtude do relaxamento geral dos vasos tornados demasiadamente permeáveis.

Toda vez que as lesões verificadas não têm maior gravidade, incumbe ao Médico-Legista pesquisar na autópsia as outras causas, preexistentes, uma lesão cardíaca, uma cirrose alcoólica, ou qualquer outro achado mórbido. Uma luta corporal não encarniçada, ou uma emoção pode apenas ser a causa desencadeante, e longe está de ser a maior ou verdadeira causa.


Matéria extraída do "Manual do Detetive Particular" de autoria do Detetive Amaral